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O plantão que virou noites de folga

Trabalho como segurança noturno num prédio comercial há oito anos. Oito anos das mesmas coisas: portão, câmeras, ronda, silêncio. Das 22h às 6h da manhã. O prédio vazio. Só eu, o monitor, uma garrafa térmica de café e o tédio. Muito tédio.

As horas são longas. Parece que o tempo não passa. Você olha pro relógio, deu 23h. Olha de novo, parece que se passaram horas, mas foram só quinze minutos. Nesses momentos, qualquer coisa serve para distrair a mente. Podcast, música baixa no fone, aqueles joguinhos de celular de estourar bolha. Tudo vale.

Na quinta-feira passada, o tédio chegou num nível extremo.

Chovia lá fora. O vigia da outra portaria estava doente, então eu estava sozinho no andar térreo. Sem ninguém para trocar meia palavra. O rádio só chiado. O café já tinha acabado. Eu estava rolando o feed do YouTube há uma hora, vendo vídeos de gente reformando móveis velhos. Sabe quando você está tão entediado que qualquer coisa serve? Pois é.

Foi aí que um anúncio apareceu. Não sei se foi o algoritmo, se foi o destino, se foi só um erro da internet. O anúncio mostrava uma plataforma de jogos. Normalmente, eu rolo pra cima sem nem pensar. Mas naquela noite, na solidão do saguão vazio, resolvi clicar.

“A gente perde o que, afinal?”, pensei.

O site carregou rápido. Design escuro, letras verdes, parecia coisa de filme de hacker. Li as regras, olhei os jogos disponíveis, vi depoimentos de pessoas comuns. Nada de gente rica de iate. Gente normal, igual a mim, que trabalhava e de vez em quando dava uma sorte.

Resolvi testar. Coloquei cinquenta reais. Era o que eu tinha separado para comprar um carregador novo. Mas o carregador podia esperar. A curiosidade, não.

Comecei com calma. Apostas de cinco reais, só para sentir o ritmo. Ganhava um pouco, perdia um pouco. Nada que acelerasse o coração. Aos poucos, fui percebendo que o site não era daqueles que somem com seu dinheiro no primeiro erro. Ele tinha cara de confiável. Cara de quem vai estar lá amanhã. Mais do que isso, eu percebi que estava num novo espelho da Vavada – uma versão atualizada, mais rápida, sem aqueles bugs que matam a paciência.

Isso me deu tranquilidade. Sei lá. Quando o negócio é bem feito, a gente confia mais, não confia?

Passei a primeira hora testando estratégias idiotas. Apostar em número par, depois ímpar. Alternar valores. Nada funcionava direito. Meu saldo foi caindo até chegar em doze reais. Doze reais. Quase nada. Pensei em parar. Já tinha perdido quase tudo. Mas aí veio aquela vozinha interna: “Você já perdeu mesmo. Tenta a última.”

Respirei fundo.

Apostei os doze reais restantes numa jogada só. Não pensei muito. Só cliquei.

A tela piscou.

Três segundos de silêncio absoluto. Só o barulho da chuva lá fora.

De repente, o saldo começou a subir como um foguete. R
12.
R
12.R 35. R
88.
R
88.R 150. R
320.
R
320.R 600. R$ 940.

Meu coração quase saiu pela boca. Segurei a mesa com as duas mãos. Meu Deus. Isso não estava acontecendo. Olhei para o monitor de segurança do prédio – tudo quieto, corredores vazios. Olhei para o celular. O saldo ainda estava lá: R$ 940,00.

Fui direto no saque. Pedi R$ 900,00. Deixei quarenta na conta – por pura superstição de segurança noturno, que acredita em número par. O dinheiro caiu na minha conta em menos de cinco minutos. Pingou a notificação do banco e eu quase gritei. Dei um murro na mesa de tão feliz. O barulho ecoou no saguão vazio.

Fiquei o resto do plantão flutuando. Fazia ronda com um sorriso bobo no rosto. Subia as escadas do prédio de oito andares como se não pesassem nada. Quando o sol nasceu, eu ainda estava processando.

No dia seguinte, fiz algo que não fazia há dois anos: comprei uma passagem para visitar minha mãe no interior. Ela está com problemas de saúde, e eu sempre enrolava porque dinheiro era curto. Com os novecentos reais, paguei a passagem de ida e volta, comprei uns presentes simples e ainda guardei um pouco para emergências.

Quando cheguei na casa da minha mãe, ela nem acreditou. “Mas você disse que não podia vir tão cedo, meu filho!” Eu apenas sorri. “Consegui um extra, mãe. Só isso.”

Não contei a história completa. Gente da minha idade, segurança noturno, tem fama de ser pé no chão. Se eu falasse que ganhei quase mil reais num site de jogos no meio da madrugada, iam achar que eu tinha virado louco. Mas a verdade é essa. Tudo começou com o tédio, uma noite de chuva, e o clique certo. Tudo começou porque eu resolvi abrir um novo espelho da Vavada funcionando liso, sem travar, sem pedir documento a cada meia hora. Só o jogo, o silêncio, e eu.

Hoje, quando chega o plantão da noite, não vejo mais o tédio como inimigo. Vejo como espaço. Espaço para tentar algo novo. Às vezes não dá certo. Às vezes você perde os cinquenta reais do carregador. Mas às vezes… ah, às vezes a vida te devolve novecentos e uma história para contar.

E essa história, ninguém tira de mim. Nem o plantão mais longo.